A democracia viu a sua essência florir pela primeira vez na Antiga Grécia, no século V a.C. Revelou-se uma grande inovação em termos de regime político para todos os Helenos, uma vez que era a primeira vez (após monarquias, oligarquias e tiranias) que o poder era exercido pelos cidadãos. Na altura, a definição de “cidadão” era claramente distinta daquela a que estamos habituados, actualmente.
“Cidadão” era apenas o homem filho de pais atenienses, de 18 anos e com o serviço militar cumprido. Outro curioso facto era a sobreposição do Estado relativamente aos indivíduos e as sentenças aplicadas àqueles que se opunham ao regime (o ostracismo ou até mesmo a morte, como confirmou o filósofo Sócrates).
Uma circunstância ainda mais curiosa, quiçá até mesmo engraçada, é o facto de a suposta “democracia contemporânea” ainda ser exercida pelos “cidadãos”, apesar da definição desta palavra se enquadrar apenas num interessante grupo social (aquele grupo ao qual o novo foge e o velho suspira). Estou a falar de nada mais, nada menos que da classe dos políticos. Umas licenciaturas com uns mestrados à mistura, uns diplomas e mais uns cursos universitários (o de Engenharia de preferência, já que é “porreiro” e fácil de obter) e já se pode ser considerado um VERDADEIRO cidadão.
Sentados na sua colina (parlamento) da “querida” acrópole (Assembleia da República), este grupo batalha ferozmente (chegando ao extremo de apontar chifres à oposição, como nos transmitiu o ilustre (ou não) Manuel Pinho) para chegar a um determinado consenso que pode ser tido como: “a maneira menos óbvia de lixar a função pública”. “Como pode dizer isso?!”, perguntarão indignados os leitores. Ora, semelhante à democracia ateniense, sempre existiu a classe dos reis (cidadãos) e a dos cavalos (escravos). Quem é que tinha de auxiliar e sofrer com os erros dos senhores? Quem tinha de acompanhar e auxiliar a educar (em parte) os filhos destes? A resposta era óbvia: Os escravos.
Passemos então para um panorama mais actual: Quem tem que cumprir horários extraordinários em troca de um salário que mal chega para pagar as contas e comprar a latinha de comida para o gato? Quem é extorquido dos seus direitos (subsídios de Natal, reformas, ordenados) para ajudar a “classe superior”? Quem perde tudo se ousar “morder a mão” daquele que lhes dá “ossos”? A resposta mais uma vez é óbvia: os funcionários públicos.
Não é todos os dias que se ouve que X funcionário recebe menos de 600€ por mês? Não se vê professores cansados, na meia-idade, lutando por voltar a aprender o português (que daqui a poucos anos com estes acordos ortográficos, à semelhança de “Mudasti”, vai ter “Eu amo você” como expressão oficial do quotidiano)? E até mesmo fora da função pública, não se presencia médicos (que salvam vidas) ganhar 3000€, professores (que tentam “ tirar a cabeça” dos jovens dos “morangos”) a ganhar menos de 1500€, enquanto que políticos (cuja presença ou não no parlamento não faria diferença) que permitem o endividamento de Portugal, a entrada de Romenos que, tal como sanguessugas se aproveitam da quase obsoleta economia do país, recebem mais de 9000€ e mandam os filhos estudar para os EUA, França, Inglaterra e Alemanha, enquanto que os restantes são forçados a permanecer em escolas decadentes, com fugas de água, falta de aquecimento e bibliotecas mais esquecidas que os restos de Alexandria?
Vivemos numa oligarquia, o poder está com os ricos, já que os membros das classes baixas já nem devem saber ler nem escrever no meio de tantas mudanças a nível da língua e da ortografia (a julgar pela grande quantidade de votos em branco nas eleições).
Por estes e outros propósitos deveria o nosso actual “Primeiro” assumir a velha máxima socrática (“só sei que nada sei”), aplicada no seu sentido literal. Seria bonito de ver.
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